quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Vamos ler? #5

Boa tarde meninas.
Vamos ler?





E então, eu ouvi sua voz.
E tudo aquilo que eu achei que tivesse desaparecido quando ele não me ligou mais,  me invadiu como uma onda que arrebenta na areia da praia. Todas as sensações que eu sentia quando ele chegava perto, todos os arrepios quando eu sentia o vento da sua respiração no meu pescoço, o gosto da sua boca, todas as lembranças dele, voltaram como se o tempo não tivesse passado. Eu achei que tivesse superado ele, que esses anos que foram levados tivessem levado também o cheiro da sua pele. Mais não, eu só vinha me enganando. Tudo ainda estava dentro de mim, as imagens tão vívidas como se tivessem acabado de acontecer. Eu queria tanto esquecer que acabei criando um mundo imaginário onde eu não lembrava dele. Onde ele, sequer tivesse existido. Nesse meu mundo, eu segui por muito tempo sem saber a verdade, que no fundo eu sabia melhor do que ninguém. Eu enterrei ele. Eu precisava fazer isso. Era ele ou eu. Nos meus dias de loucura, eu entregava minha sanidade nas mãos dele. Loucura essa que vinha com os beijos dele, o toque macio das mãos dele pelo meu corpo. Loucura essa que me tomava em teus braços e não me deixava respirar. Loucura essa que tinha nome, endereço e numero de telefone. Loucura que só foi embora quando me decidi esquecer, ou não. Apenas queria que a vida que eu tinha antes dele voltasse. 
Mais não entendo como um timbre de voz pode ser tão reconhecível assim, através de todas essas paredes que nos separam. Como um som pode me trazer tantas lembranças esquecidas? Como pode arrebentar em tão pouco tempo as muralhas que levei meses pra construir pra mante-lo trancado?
Mais meu coração sabia, que o pior não era isso. No fundo, na verdade, eu até gostava disso. Eu fui feliz. Algum dia, ao lado dele.
- Laura? - meu nome ecoava ao som daquela voz - Laura, é você? - ele insistiu.
Eu não queria me virar, não podia me virar. Não conseguiria fingir a dor que estava dentro de mim. Ele veria as chamas em meu rosto. Ele me veria desabar. Eu não precisava disso, não depois de me sentir tão forte e segura.
Então, meu corpo renegou ouvir minha consciência e se virou. Como eu queria ter me arrumado, passado um rímel e um blush pelo menos. Ou melhor, como eu não queria estar ali. Mais como não estaria, era meu emprego. Ele é quem não deveria ter vindo.
- Como você está? - ele perguntou, vendo meu estado de choque - Esta tudo bem?
Eu não sentia nada, nem meu peso corporal nem espiritual; se é que aquela altura eu pesava alguma coisa né.
Me forcei um sorriso - Olá. Esta tudo certo e você? -  Meus olhos fitaram a aliança dourada que reluzia e atraia meus pensamentos - Vejo que você se casou, ual. Como ela é? - Minha curiosidade me mataria algum dia, mas eu precisava desviar a atenção, e isso me machucava mais.
- Ela é linda, se chama Ligia. Obrigada.
- Henrique?! - alguém o chamou ao fundo. Eu nem percebi o quanto ele estava perto agora.
- Bom, foi um prazer te ver novamente, você esta muito bem. Tchau - ele me tocou nas costas com um tapinha de amigos. Foi como se alguém tivesse me ligado a tomada de novo. Senti uma forte corrente elétrica passando por cada músculo, cada órgão, cada veia dentro de mim. . .
- Adeus Henrique. - Foi a única coisa que eu consegui dizer. Pelo menos dessa vez nos despedimos. . 




beijo beijo
ps: esse texto foi escrito por mim, reproduções merecem os devidos créditos.
Imagem: Google